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O surgimento da bossa-nova e do MPB como a marca do “novo estilo brasileiro”






O brasil após o estadonovista teve a música como um dos pilares da comunicação entre a arte, o governo e o povo. O surgimento da bossa-nova e do MPB é a marca do “novo estilo brasileiro”, onde diversos artistas surgiram e se popularizaram com suas canções marcante. O rádio era o principal difusor do novo estilo musical no Brasil, porém, a TV também crescia pelo país, e junto com ela, os novos artistas que apareciam no programa “festivais de canções” transmitidos pela TV Record de São Paulo, onde era um espaço para lançar e popularizar vários artistas que ali se apresentavam, e a partir desse espaço aberto na TV, as canções engajadas começam a ganhar seu espaço, e com o sucesso de audiência. 

A era dos festivais recebe mais temporadas no espaço aberto da TV, já que as audiências subiam, os comerciais também investiam no canal e através desse espaço aberto, também se renova a estética das apresentações, saindo de um cenário teatral, para o auditório, e com propagandas no meio das apresentações artísticas, se via uma forma de mercado com os novos artistas. No terceiro festival, tentam consolidar a capital de São Paulo como a “capital da música brasileira”, e nesse cenário, Elis Regina, Vinícius de Moraes, entre outros artistas se consagram na mudança de um novo estilo, onde o termo “popular” começa a ganha um novo tom, onde a MPB renovada começa a cair no gosto do público, dando espaço para o “boom” da Jovem Guarda, onde o seu público era mais eclético. A audiência engajada do público, prestigiava artistas como Chico Buarque de Holanda, Gilberto Gil, Caetano Veloso, e outros artistas que surgiram nesse meio, onde suas músicas, davam uma crítica de forma subversiva a política brasileira, diferenciando da moda de viola, que entoava o sofrimento do povo em suas raízes e o êxodo rural. 

O clube da Esquina que surge na década de 60, em Belo Horizonte, revelava uma das maiores vozes do Brasil, Milton Nascimento e Lô Borges, e através dessa parceria, surge o álbum “Clube da Esquina” onde os gêneros bossa nova, jazz e música erudita se misturam nesse álbum, dando uma nova vida ao MPB. Nesse período de intensificação do engajamento político no Brasil, contra a repressão política que surgia, a música se tona um símbolo de resistência, porque diferentemente dos anos dourados, onde a expressão artística começa aos poucos a retomar sua voz, o período do regime militar no Brasil começa a censurar vários artistas por todo país. Por mais que no período novista as expressões fossem tímidas, ainda era possível expressá-las, e a partir desse ponto, a música se torna o interlocutor entre a resistência e o ouvinte. A arte toma a sátira, os versos, figuras de linguagem e outras expressões como uma forma de transmitir ideais e valores de formas subversivas, e a canção popular se torna o panfleto da expressão.



Vamos discutir alguns aspectos individualmente para cada um desses movimentos:

1 - Revolução estética

Bossa Nova (anos JK): A Bossa Nova, que surgiu na década de 1950, foi marcada por uma revolução estética que enfatizou a simplicidade, a harmonia suave e as letras líricas. A música bossa nova era minimalista, com arranjos despojados e vocais suaves. Ela buscou uma estética mais sofisticada, distanciando-se do samba tradicional e do ritmo acelerado.

MPB (Festivais da Canção): A MPB, que ganhou destaque nos anos 1960 através dos Festivais da Canção, manteve elementos da Bossa Nova, mas também incorporou influências de diferentes regiões do Brasil. Houve uma diversificação estilística dentro da MPB, com músicos explorando uma gama mais ampla de ritmos, instrumentações e letras engajadas.

Clube da Esquina (década de 1970): O Clube da Esquina trouxe uma revolução estética distinta, combinando elementos da música brasileira com o rock progressivo e o experimentalismo. A estética desse movimento era marcada pela fusão de gêneros musicais e pela experimentação sonora, criando uma abordagem mais eclética e progressista.


2 - Relação com a arte popular

Bossa Nova: A Bossa Nova, apesar de incorporar elementos da música popular brasileira, tinha uma abordagem mais sofisticada e era vista como um movimento de elite. Suas letras frequentemente abordavam temas relacionados à classe média urbana.

MPB: Os músicos da MPB, especialmente durante os Festivais da Canção, buscavam uma conexão mais direta com a cultura popular brasileira. Suas músicas frequentemente abordavam questões sociais e políticas, tornando-se um veículo de protesto e conscientização.

Clube da Esquina: O Clube da Esquina também tinha uma forte conexão com a cultura popular brasileira, mas sua abordagem era mais inclusiva, incorporando elementos do folclore e da música regional de Minas Gerais. Suas letras eram mais poéticas e introspectivas.


3 - Militância política:

Bossa Nova: A Bossa Nova geralmente se afastou da militância política, adotando uma postura mais apolítica em um momento de agitação política no Brasil.

MPB: A MPB, durante os Festivais da Canção, desempenhou um papel importante na militância política, com músicos como Caetano Veloso e Gilberto Gil sendo ativos na oposição à ditadura militar.

Clube da Esquina: O Clube da Esquina também teve músicos engajados politicamente, embora de maneira mais sutil. Suas letras muitas vezes tinham mensagens de resistência e esperança.


4 - Questão comercial:

Bossa Nova: A Bossa Nova teve sucesso comercial no Brasil e internacionalmente, mas manteve um nicho de público mais restrito devido à sua natureza mais sofisticada.

MPB: A MPB, especialmente durante os Festivais da Canção, conseguiu um grande sucesso comercial no Brasil e ajudou a promover os artistas envolvidos.

Clube da Esquina: O Clube da Esquina, apesar de seu reconhecimento crítico, teve um apelo comercial mais limitado devido à sua natureza experimental e eclética.


A Bossa Nova, a MPB dos Festivais da Canção e o Clube da Esquina representaram diferentes abordagens estéticas, sociais e políticas na música brasileira, cada um enfrentando os desafios específicos de sua época de maneira distinta. Cada movimento contribuiu de maneira única para a rica tapeçaria da música brasileira.


NAPOLITANO, Marcos. Os festivais da canção como eventos de oposição ao regime militar IN: REIS, Daniel Aarão; RIDENTI, Marcelo; MOTTA, Rodrigo Patto Sá. O golpe e a ditadura militar 40 anos depois. Rio de Janeiro: FAPERJ/7 Letras, 2004, p. 203-216.

- STARLING, Heloísa Maria Murgel. Coração americano. Panfletos e canções do Clube da Esquina. IN: REIS, Daniel Aarão; RIDENTI, Marcelo; MOTTA, Rodrigo Patto Sá. O golpe e a ditadura militar 40 anos depois. Rio de Janeiro: FAPERJ/7 Letras, 2004, p. 217-228.