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As Revoluções Francesa e Inglesa nas perspectivas de Eric Hobsbawm




 

O século XIX foi um período repleto de mudanças econômicas e transformações sociais na Europa. Com a evolução das produções industriais e a crescente urbanização, a burguesia e a classe trabalhadora sofreram impactos diretos em suas estruturas, sejam elas familiar ou social. A burguesia foi fundamental para que essas ondas de revoluções ocorressem, nisso que ela cresceu proporcionalmente junto com os processos de industrialização em massa na Inglaterra e com as mudanças políticas na França.


Em consequência da Revolução Industrial na Inglaterra e as mudanças políticas ocasionadas pela Revolução Francesa, surge uma nova identidade da burguesia, que serão moldadas nas civilizações. Na França, a burguesia tinha um intenso desejo de mudanças políticas, buscando se inserir diretamente nas decisões do Estado, ou seja, uma plena liberdade política, onde seria possível reivindicar suas lutas durante o momento da revolução, que posteriori seriam consolidadas. Entretanto, a sua consolidação política mudaria aos poucos o comportamento da sociedade. A cultura seria umas das principais mudanças ocasionadas com a ascensão da burguesia no poder, que teria um boom cultural com a expansão do capitalismo sobre a Europa. O movimento capitalista seria um facilitador da difusão cultural burguesa na classe trabalhadora, afinal, a industrialização em massa possibilitaria a mudança da sociedade camponesa para uma sociedade urbanizada, que dialogaria com o movimento das cidades ao decorrer de seu crescimento, e essa urbanização seria a forma mais fácil da sociedade burguesa inserir seus interesses sobre a sociedade.


A expansão das cidades, principalmente na Inglaterra, teve a mineração e a produção do aço como fator dominante, e isso levou a construção de máquinas a vapor e ferrovias, que facilitariam a movimentação econômica que se desenvolvia. O processo de êxodo rural e crescimentos da indústria, formaram grandes centros urbanos, e a partir dessa concentração da classe operária, foram aprimorando os transportes e também a ampliação das estradas e ferrovias. A Revolução Industrial trouxe a burguesia um prestígio de poder econômico e político que antes só era visto no domínio monárquico, mas que agora também está concentrado nas mãos burguesas. A industrialização burguesa mudou os rumos econômicos e sociais na Europa, mas não significou mudanças radicais nas estruturas da sociedade, o poder econômico ainda estava concentrada nas mãos de poucos, e a classe operária era explorada, possuindo pouco daquilo que ela mesmo produz.


A burguesia enxergou a estrutura familiar como uma forma de moldar os seus interesses na sociedade. Segundo Hobsbawm, ela encontrou dificuldades em “combinar aquisições e despesas de um modo moralmente satisfatório” e criar uma sucessão de homens dinâmicos dentro de uma família, afim de se manter os negócios econômicos familiares, nisso ele vai exaltar a importância das filhas dentro dessas famílias, que segundo ele, essas podiam se dar em casamentos e trazer novos homens para dentro dessa estrutura familiar, que acabariam dando sequência a esses negócios familiares, ou seja, uma forma de união entre duas famílias afim de dar prosseguimento às relações econômicas estabelecida, criando uma nova geração patriarcal. Ele ainda vai destacar que os maiores interesses da sociedade burguesa era o lucro, e isso já seria uma motivação para geração de riquezas.


A família burguesa, teria em sua concepção de vida a frase “as aparências importam”, porque para eles era muito importante se aparentarem como “bem sucedidos”, e isso deveria transparecer em suas vestimentas, na decoração de suas casas, e em vários aspectos do cotidiano, criando uma cultura de aparências. Nessa forma, era necessário se expressarem como “verdadeiros nobres” cultos, com livros nas prateleiras de suas casas, instrumentos musicais na sala, e outros itens que demonstravam a grandeza daquela família na sociedade, entretanto, possuir essas coisas não significava que realmente sabiam utilizá-las, Hobsbawm destaca que a presença de pianos na casa, era a representação de um poder econômico naquele lar, e as filhas desses lares eram obrigadas a praticar escalas musicais, afim de aparentar o conhecimento de tal objeto. Mas, o mais importante era que os objetos demonstrarem seus valores, que segundo Hobsbawm, a maioria dos lares burgueses eram um grande acúmulo de objetos antigos, que fariam os diferenciarem dos lares mais pobres.


A moralidade burguesa também teve grande impacto nas transformações socias, principalmente nas questões sexuais. Herdados pela moralidade da “Era Vitoriana”, a burguesia tinha como característica comportamentos patriarcais, rigorosos com a modéstia e a castidade, mas que na prática muitas vezes não era seguida à risca, principalmente pelos homens, mas naquela sociedade, a mulher deveria ter a castidade preservada, sendo na realidade uma moral imposta apenas para as mulheres, o que Hobsbawm definiria como “hipocrisia burguesa”. Mas essa repressão sexual era diferenciada em países católicos e protestantes, sendo no mundo do protestante a moralidade mais rígida que os católicos. A moralidade era um marketing da sociedade burguesa, uma forma de se vender certos padrões de vida como “seres superiores” aos demais, que era tão contraditório quanto suas ações.


Hobsbawm afirma não existir uma burguesia autoconsciente de sua representação no poder econômico e político, visto que essa tinha um grande poder de influência no Estado. Realmente eles não possuíam essa autoconsciência de sua representatividade, a classe burguesa só se interessava em manter suas atividades lucrativas e manter seus status sociais. A partir de seus interesses naquela época, ela teve grande influência na formação social que ocorria na Europa, onde muitos tentavam se ascender socialmente pela influência da “prosperidade burguesa”. Por mais que sua influência não era autoconsciente, ela possuía uma representatividade impactante na sociedade, que se prolongou até depois do século XIX, principalmente na formação das estruturas de uma sociedade capitalista.

 


- HOBSBAWM, Eric. A Era do Capital, 1848-1875. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 2000.

- HOBSBAWM, Eric. Da Revolução Industrial ao Imperialismo. Rio de Janeiro. Forense Universitário, 2013.