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Edward Said - Cultura e imperialismo: “Jane Austen e o Império”




Edward Said em seu capítulo “Jane Austen e o Império” irá trazer o romance Mansfield Park, e citações à alguns pensadores, afim de realizar várias críticas aos moldes imperialistas realizados pela Inglaterra e alguns países da Europa, como Portugal e França. Said vai criticar não de forma reducionista, as formas como a cultura europeia ou americana abrem o caminho para uma ideia muitas vezes até consolidada de um grandioso império, e como essas culturas permitiram as ações imperialistas em países “menos desenvolvidos”. Citando V. G. Kiernan: “Os impérios precisam ter um molde de ideias ou reflexos condicionados em que possam introduzir, e as nações jovens sonham com um grande lugar no mundo, assim como os jovens sonham com a fama e a fortuna.”1 Said traz essa citação para demonstrar a ideia de que o império nasce a partir dos reflexos de poder de outras nações ou ideais constituídos sobre formas de poder próspero, comparando as nações novas como os Estados Unidos após a independência como um jovem que sonha em ter a fama e fortuna como um fator principal de uma “soberania”.


Edward Said não irá transmitir a concepção de que tudo nas culturas europeia e americana é de valor imperialista, mas vai mostrar que na própria narrativa ou teoria política desses lugares, há o encorajamento de prática e experiência imperial sobre outras nações, como exemplo o Império Romano. E segundo o autor, a ideia de uma “missão imperial” era constantemente pregada nas obras dos principais pensadores da época, e irá levantar a hipótese de que nenhum desses pensadores demonstrou alguma resistência a essas culturas de imperialismo. Ele irá trazer o pensamento de Stuart Mill sobre a missão de levar a civilização avançada às nações menos civilizadas; “[...] os deveres sagrados que as nações civilizadas devem à independência e à nacionalidade umas das outras não são obrigatórios em relação àquelas para as quais a nacionalidade e a independência constituem um mal inequívoco ou, pelo menos, um bem questionável”.2 Portanto, Mill irá recomendar que não permitisse que a Índia declare sua independência, sendo visível que a enraizada cultura imperial se sobressaísse em detrimento de suas preferências sobre as nações “menos desenvolvidas”, mas, Said reafirma que esses fatores em si são responsáveis diretamente pelo domínio e colonialismo dos europeus sobre outros territórios.


Segundo Nicolas Canny, as “missões” coloniais sempre começam pela hipótese de um atraso cultural cívico, e essas ideias de povos atrasados foi um dos combustíveis de motivação para a expansão marítima sobre esses territórios menos “civilizados”, principalmente na colonização inglesa sobre as Américas. Hoje, essas ideias de levar a civilidade próspera e avançada ainda persiste nos EUA como herança de sua antiga metrópole, a Inglaterra. Entre essas heranças da cultura europeia espalhadas pela colonização, estão as ideias positivas sobre os conceitos de orgulho da pátria, o sentimento de uma nação e o seus valores morais, e outras ideais positivos. Said vai ressaltar que esses ideais positivos não só irão validar o nosso “mundo” ou território, mas irá desvalorizar os outros mundos e culturas existentes. E como de característica imperialista, sobrepor a sua visão de mundo sobre os mais “fracos” é algo comum de sua natureza, porque pouca resistência esses países ofereceriam ao mundo imperialista. O mundo imperialista oferece uma ilusão de progresso e desenvolvimento com o preço de subordinação ao dominador, como visto nas colônias na América. O autor irá questionar como as ideias humanistas conviveu de forma tão confortável com o avanço do imperialismo sobre os povos africanos, asiáticos, latino e latino-americanos.


“As antigas comunidades rurais orgânicas foram dissolvidas e formaram-se outras novas sob o impulso da atividade parlamentar, da industrialização e de deslocamentos demográficos, mas também ocorreu um novo processo de realocar a Inglaterra (e a França na França) num currículo maior do mapa mundial.” 3Para Said, entre as formas de domínio imperialista, também está no empreendimento como uma forma de dominação, onde as viagens ultramarinas comerciais levaram a uma série de confrontos entre a Inglaterra e a França por domínio dos comércios e suas relações com as colônias. Dentre o romance de Mansfield Park, Said irá mostrar que o romance de Austen expressa uma forma da sociedade pelos seus valores de aparências, por uma “quantidade de vida atingível”, seja ela em adjacências financeiras ou até bens adquiridos, como no exemplo do romance, onde a tia de Fanny, a lady Bertrand, consegue um excelente casamento mesmo não sendo uma mulher de grandes posses, mas por sua formosura consegue se casar com um baronete. E essa vida atingível se daria por “escolhas certas” e pelas discriminações morais que a pessoa faria. O romance vai destacar como os valores daquela sociedade já estavam pré-estabelecidos, assim como Hobsbawm descreve que os valores burgueses enxergaram nas estruturas familiares a forma de moldar seus interesses na sociedade, o poder do capital demonstra o que seria um “ideal” de vida. Austen em seu romance não defende esse modelo como forma de vida, mas pratica uma ironia literária como uma crítica a esses valores estabelecidos pela sociedade burguesa.


Neste trecho do texto, é possível lembrar dos escritos de Eric Hobsbawm a respeito das casas burguesas e suas influências em demonstrar seu poder social, com a transformação do interior de suas casas, com um piano na sala, cortinas e obras de arte, cadeiras forradas, e outra série de decorações afim de demonstrar a sua classe econômica perante toda sociedade “[...] Jane Austen, do interior das casas, nunca consegue enxerga-las, a despeito de sua intricada descrição social. Toda a sua discriminação é, compreensivelmente, interna e exclusiva. Ela está interessada na conduta de pessoas que, entre as dificuldades do aprimoramento, estão constantemente tentando se transformar numa classe. Mas onde se enxerga apenas uma classe, não se enxerga nenhuma classe.”4 A autora descreve como no mundo imperialista havia descriminações sociais por parte daquela sociedade, e como a expansão imperialista está ligado aos moldes da burguesia do século XIX.i



1 SAID, Edward. Jane Austen e o império. Cultura e Imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 143.

2 Idem. p. 144.

3 Idem. p. 144.

4 Idem. p. 149.


Referências: i

SAID, Edward. Cultura e Imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

HOBSBAWM, Eric. Da Revolução Industrial ao Imperialismo. Rio de Janeiro. Forense Universitário, 2013.