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Concepções da história, da dialética ao materialismo




O movimento iluminista trouxe a humanidade uma grande ruptura com algumas ideias criacionistas ao propor novas ideias filosóficas acerca do nascimento e evolução da humanidade, trazendo a razão como um novo método de interpretação do conhecimento. A razão se torna a nova bússola para a busca do conhecimento, onde tudo se pode ter uma explicação além da concepção criacionista, e a humanidade caminha em direção a esse conhecimento movido pela própria razão. Mesmo Hegel não pertencendo ao movimento iluminista, ele traz consigo algumas ideias que possuem influência direta desses pensadores, como o conceito de razão, porém, a razão para ele é compreendida em forma antagônico ao proposto pelo iluminismo. Mesmo sendo influenciado pelos escritos de Kant, Platão e outros filósofos clássicos, Hegel entende o homem como um ser histórico, ou seja, as ideias e as verdades são mutáveis, o ser humano é em essência dinâmico, indo na contramão da filosofia grega clássica que acreditava em ideias imutáveis. E através da forma dinâmica do homem e suas mudanças ao longo do tempo, que ele vai justificar que esse tempo absoluto é o tempo da história como um todo, e o devir histórico surge no pensamento hegeliano com a dialética, onde sua proposta não era uma análise da realidade, a dialética era a realidade para Hegel. O devir é própria discussão dos contrários, um ciclo entre a tese, a antítese e a síntese, um movimento mutável na construção do conhecimento, trazendo novas ideias e conceitos ao pensamento filosófico. E no pensamento de Hegel, o ser humano chega ao conhecimento histórico por uma fenomenologia do espírito, onde ele vai entender que através da metafísica se é compreendido todo conhecimento humano, indo em confronto ao antigo debate entre racionalistas e empiristas, nas ideias de sujeitos cognoscente e sujeito cognitivo, verdade absoluta e espírito absoluto.

 

Nesse embate de ideias, Hegel se aproxima às ideias de Kant, entendendo que ao juntar esse conjunto de ideias racionalistas e empiristas, cognoscente e cognitivo, é possível chegar a uma verdade absoluta, e quando o indivíduo alcança essa verdade, Hegel irá definir esse estágio como “espírito absoluto”. Mas para compreende-lo, é necessário compreender o “espírito do tempo”, esse será capaz de se reconhecer enquanto membro de um tempo histórico, pelo fato de que cada sujeito em determinado espaço, lugar, cidade, ele poderá vivenciar uma experiência diferente que é exclusiva somente do indivíduo, e essas experiência serão únicas a ele. O espírito absoluto para Hegel, consegue chegar a uma verdade absoluta e ampliar o seu conhecimento acerca da dicotomia e entender o sujeito histórico que ele é, enxergando para além de seu tempo e se inserindo nele, Hegel vai justificar suas ideias a partir de uma explicação de categorias reais, um idealismo transcendental. Nesse idealismo, surge a autoconsciência absoluta, onde a razão continua em constante progresso, e nela a história que segundo ele é a vida no espírito absoluto, se torna a realização de um ideal divino onde todo esse plano seria realizado pelo Estado que surge nas ações concretas do ser humano. E o ser humano constrói as leis, as nações, e tudo que entendemos como indivíduos porque o ser humano é própria ideia, sendo impossível ter uma separação entre o processo histórico e o indivíduo. O Hegelianismo gerou várias correntes filosóficas a sua interpretação, e dessas surgem as duas principais vias para o seu compreendimento, o movimento Ortodoxo e o Neo-Hegelianismo. O movimento Ortodoxo acreditava que a evolução do espírito continuava em crescente progresso e estaria em seu auge, onde as ideias construídas estavam tudo em ordem com suas leis, Estado, boom econômico, e a qualidade de vida em constante melhora.

 

O Hegelianismo Ortodoxo seguia fielmente os ideais deixados por Hegel, e buscavam manter o idealismo metafísico como um ideal absoluto. O Neo-Hegelianismo por sua vez tinha a interpretação que Hegel pouco se pensou no futuro, e essa nova corrente de pensamento buscar interpretar o autor para uma concepção de um futuro, tentando entender o que se poderia transformar a partir daquele momento, mas mantendo o idealismo proposto pelo Hegel. E nesse espaço surgem as interpretações de Marx sobre Hegel, para ele só quando há uma convergência e uma união entre ideia, vontade e ação as coisas acontecem no mundo, saindo de um idealismo ele vai justificar que a única forma de se impactar o mundo é por meio de produção e distribuição de bens. Marx vai dizer que sociedade civil é um conceito do próprio Hegel, e a sociedade é a concepção de uma organização de laços materiais, através do dinheiro, poder, bens e outros, mas para o Hegel esse laço seria fruto do espírito. Marx que foi um profundo leitor de Hegel e se inspirou em suas obras, irá propor o materialismo histórico como um método racional, segundo sua proposta é que quanto mais o indivíduo age, mais ele pensa, e a partir desse momento ele estará ligado diretamente a ação e relação real com o mundo, Marx então vai trazer a dialética proposta por Hegel e ser um crítico feroz de seu idealismo, e a partir disso ele elabora o materialismo histórico, que trará ideias contrarias ao idealismo hegeliano, buscando entender a história pela perspectiva de uma luta de classes e seus modos de produção. As relações de produção fazem com que as ideias mudem a partir das ações, rompendo com um idealismo não prático, e essa prática ocorre através das lutas de classes que será o motor da história. Marx e Engels constroem uma crítica às elites do século XIX com um olhar voltado principalmente para Revolução Industrial, que tinha uma mecanização trabalhista desigual, e a exploração da mão-de-obra da classe operária, enriquecendo a burguesia da época. Marx entende que a luta de classes seria o movimento que daria um rumo a humanidade, o trabalhador deveria lutar por seus direitos e possuir aquilo que ele produz, não deixando o capital concentrado nas mãos da elite. Suas teorias convergiam a uma mudança radical na sociedade, buscando os direitos a partir de uma visão igualitária, indo na contramão do idealismo alemão.

 

Marx em seus estudos do idealismo Hegeliano, irá observar que os escritos idealistas eram contraditórios pelo fato de não haver uma mobilidade social, ou seja, quem nasce detentor dos meios de produção continua até o fim da vida na mesma classe social, e quem é detentor da mão-de-obra também continua na mesma classe. Marx justifica ser possível essa mudança de classes e admite que os conceitos metafísicos são estagnados socialmente. Ele entende que o ser humano é transformado pelas relações sociais e econômicas e que o indivíduo é submetido em sua existência, então para ele o ser humano não tem uma “natureza humana”, e um desses argumentos seria que a realidade é uma ação contínua, o homem se constrói como indivíduo a todo instante, e por isso o meio de produção não deveria ficas nas mãos de algumas pessoas, mas sim pertencer ao Estado, algo que ele e Hegel tem em comum, em acreditar que o Estado deveria ser o detentor dos meios de produção, e o Estado seria representante do povo, e esta seria a forma mais igualitária de se distribuir os frutos da mão-de-obra proletária. Para Hegel o Estado se encontra como uma das formas mais perfeitas para se representar o espírito absoluto, pelo fato do Estado poder representar e organizar a sociedade como um todo. Já o Marx não acredita que o Estado é a forma mais perfeita de ser organizar a sociedade, mas sim o sistema que representa expropriação dos meios de produção, e esse sistema só funcionaria através de um Estado representativo, e as futuras gerações poderão desfrutar um novo sistema, uma nova estrutura, onde a noção de posse capitalista não existirá pelo fato de ter um Estado que organize a distribuição dos meios de produção e distribua os frutos por ela criado.

 

 

i Referências: 

- GARDINER, Patrick. Teorias da história. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian,

2004. p. 71- 87.

- PLANT, Raymond. Hegel, sobre religião e filosofia. Trad. Oswaldo Giacóia Jr. São

Paulo: UNESP, 2000. P. 12-60.

- BARROS, José de D’Assunção. Teorias da História e Filosofias da História: reflexões

sobre o contraste entre estes dois espaços de reflexão sobre o fazer histórico. Disponível

em HTTP:// www.seer.ufrgs.br/anos90/article/view/15756

- MENDES, V. A. A sociedade civil em Hegel e Marx (Civil society in Hegel and Marx)

Doi: 10.5212/Emancipacao.v.12i2.0006. Emancipação, v. 12, n. 2, 14 mar. 2013.